terça-feira, 4 de novembro de 2008

Devagar

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Quando eu era ainda criança

O que mais sonhava era conduzir um carro

Com muitas moedas e maços de tabalo na consola.

Assim sentia-me um homem realizado.

Não andando depressa,

Mas numa velocidade de cruzeiro:

Vinte, trinta e assim ser o primeiro.

Um roda no passeio,

Outra no alcatrão;

Deixava passar todo o camião,

Porque a minha pressa

Era como a de alguém

Que encomenda o seu caixão.

Coitado do Miguel!

Aquele filho ainda tão novo,

E velá-lo como se fosse a seu pai.

Certamente teve a dor de encomendar o capote do filho!..

Como eu tive a minha pesada dor,

De lhe prestar as minhas sentidas condolências...

Se não fosse à misericórdia velar o corpo

Era como se tivesse sido eu o morto...

E eu preciso é de nascer,

Não de morrer,

Para viver a conduzir

A vida que um dia acabei por escolher...

Precisava de ter o sonho

Que teve a linda de suza aquando da tragédia de entre-os-rios.

Mas eu já há muito que deixei de sonhar.

Durmo, durmo pesadamente,

Para no dia seguinte poder caminhar;

Como sempre:

Devagar...

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