Quando eu era ainda criança
O que mais sonhava era conduzir um carro
Com muitas moedas e maços de tabalo na consola.
Assim sentia-me um homem realizado.
Não andando depressa,
Mas numa velocidade de cruzeiro:
Vinte, trinta e assim ser o primeiro.
Um roda no passeio,
Outra no alcatrão;
Deixava passar todo o camião,
Porque a minha pressa
Era como a de alguém
Que encomenda o seu caixão.
Coitado do Miguel!
Aquele filho ainda tão novo,
E velá-lo como se fosse a seu pai.
Certamente teve a dor de encomendar o capote do filho!..
Como eu tive a minha pesada dor,
De lhe prestar as minhas sentidas condolências...
Se não fosse à misericórdia velar o corpo
Era como se tivesse sido eu o morto...
E eu preciso é de nascer,
Não de morrer,
Para viver a conduzir
A vida que um dia acabei por escolher...
Precisava de ter o sonho
Que teve a linda de suza aquando da tragédia de entre-os-rios.
Mas eu já há muito que deixei de sonhar.
Durmo, durmo pesadamente,
Para no dia seguinte poder caminhar;
Como sempre:
Devagar...

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