domingo, 19 de abril de 2009

Guarda lá essa merda!





















Já não há água de novo.
Oh meu povo:
Não faço mais nada que andar nas minas.
E isto é uma loucura.
Fazer isso era só no alto verão;
Setembro, segundo me lembro,
Fora disso era um autêntico suicídio.
Desmoronamentos
Que podem ocorrer nesses momentos.
A terra está húmida,
E é facil isso acontecer.
Mas o clima já não é o que era.
Pode estar mais húmido nessa estação,
Do que agora.
Então os gelos norte polares
Não vão derreter na próxima década,
Tudo por culpa do ser humano?
Mas entrar na mina é sempre um encanto:
A água, com todo aquele emaranhado de raízes,
Que entrando na tubagem,
Impedem qualquer passagem.
Arranca-se,
Até serve para consolidar,
O pequeno muro para a água se albufeirar.
Qual criança,
Pela mina fora gatinhar.
Um foco na mão,
Esses dos chineses ou marroquinos,
Quando dantes eram de querosene.
Mas isto não é
Nem nunca foi perene:
Antigamente era as lucernas de azeite
E com gordura animal.
Preciso de captar água aqui no quintal,
Enquanto as leis não são demasiado apertadas.
A água vai ser o futuro.
Neste século,
É o bem mais valorizado.
Até poderei trocar esse bem
Como fazem os sourenses
Com o seu comércio solidário;
Pelos vistos,
Inspirado na experiência brasileira
De troca de produtos e serviços
Para combater a pobreza.
Dou água ao vizinho que me der energia
E comunicações.
O dinheiro deixa de ser uma das coisas importantes.
No fundo,
É viver como se vivia antes...
Está bem, eu levo-a.
É domingo,
Mas as explicações não têm dia sagrado.
Não guardo,
Porque nada se deve guardar.
Tudo o que temos é para partilhar,
Até aquilo que eu vou fazer com a água...

















terça-feira, 14 de abril de 2009

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Tubarões

E os peixes mais caros, como o sável?
"Também vendem-se bem.
Vêm aí os senhores ali do tribunal e levam tudo e nem regateiam o preço!
O povo leva o peixinho miúdo, pois o grande vai para os tubarões", ironizou.

Sim, foi isto que se passou.
Curioso é que os tubarões são elementos do tribunal.
Não regateiam, como aquela vendedora do Bulhão testemunhou.
Pagam tudo o que lhes pedirem, afinal.

E isto só acontece
A quem o dinheiro entra às pazadas...

Veio-me à memória uma conversa tida
Com um antigo executor judicial num café.
Ninguém duvida,
Que o homem dissera que com isso muito ganhara.
Até um T4 ao pé da Albergaria Império, apanhara
Pela ridícula quantia de 2500 contos.

12500 euros!
Apenas teve que dar quinhentos euros a cada um dos poucos funcionários,
Que lhe permitiram fazer o negócio da china.
Terrivelmente prejudicados são os devedores;
Até o Estado, para quem trabalham esses senhores.

No privado, roubar o patrão
Dá despedimento imediato;
Sem direito a qualquer indemnização.
Aqui, não!

Conheço um caso dum que foi expulso,
Mas veio o papa e fez-se tábua rasa.

Por que ele saíu dessa profissão?
Apenas porque alguém prometeu limpar-lhe o sebo.
E vai daí, torna-se madeireiro.

A portucel já não aceita madeira.
Portugal, numa terrível crise, está à beira.
Um cenário de deflação que remonta ao início da década de 60.
Crianças que para a escola vão com fome,
Só porque os pais se escondem atrás das boas marcas;
Universidades sem dinheiro para salários,
Alunos do superior que desistem
Porque as famílias não podem assumir os encargos...

Entretanto, o ministério da educação tem de indemnizar,
Os elementos dos directivos que vão dos seus cargos, ter de abdicar.
Mais despesas autárquicas
Só porque há mais eleitores.

E a pobre da octogenária sofreu
Porque o compasso pascal da sua casa se esqueceu.
Fazer a limpeza a fundo; varrer o caminho.
Colocar flores na entrada com todo o jeitinho.
Já não bastava a cruz da vida,
Ainda teve que sofrer com mais essa ferida...

Voltaste aos poemas?!
Oh pobre!

Sim, sabes porquê?
Alguém pediu que a memória nunca se apague.

domingo, 12 de abril de 2009

Algodão doce



















Sabe o que é isto, tia?
Não.
É uma roca com o linho.
Só que em vez do fuso,
É as mãos que o seguram
E aparam devagarinho.
Mete à boca;
E aprecia.
É bom?
É docinho.
Quer mais?
Sim, é para o caminho...
Caminho. Que caminho?
O último. Como seguiu hoje a rosa carola.
Era para cortar a perna,
Mas precisa dela para noutro mundo se deslocar.
Amanhã, às três, vai a enterrar.
Lembro-me dos ovos e outras ofertas
Que no início dos anos noventa,
Na Casa Nova ela me contemplava.
Fazia-o às escondidas dos familiares e amigos.
É que vivendo eu em concubinato,
Não era visto com bons olhos.
Era como tendo uma pedra no sapato.
Quando abri a porta à cruz,
E entrou lá o Jesuz,
Ela foi uma das que com a sua presença
Me presenteou.
Agora, volvidos 18 anos,
Se finou.
Morrer nesta data,
Foi coisa que nunca imaginou...
Até o melro
No ninho do arbusto de alecrim,
Adorou o compasso.
Bem levantou o bico
À espera que chegasse a imagem.
É que quem pegou nela,
Foi o chefe da casa.
Mas, tinha tido uma noite de insónia,
Razão porque dele se esqueceu.
Já pensei em pedir ao meu primo,
Salsa da colômbia;
Ou ao rei Hassan II,
A milagrosa marijuana;
Ou o khat ou miraa dos somalis e quenianos...
A ver, vamos...