domingo, 4 de dezembro de 2016

Envelhecer

A língua obedece às leis da economia;
Li isto, um dia.
Assim mortalha, tanto pode ser o lençol
Que envolve o cadáver a ocultar
Como o papel fino, a ver-se o sol,
Que embrulha o tabaco de enrolar.

São palavras iguais,
Mas o contexto em que são inseridas,
Torna-as diferentes como as demais;
Até são palavras mais coloridas.

A isto chama-se homonímia,
Mas a paronímia, homofonia e homografia,
Fazem parte dessa libertação do falante,
Que com uma pequena alteração,
Faz a sua mensagem num instante.

Li, li também há longos tempos idos,
Que na língua eslava,
Só a entoação que o actor lhe dava,
Podia ter várias dezenas de sentidos,
Uma singela palavra.

Lembrei-me da folha do pinheiro,
Agulha, gravalha, gravanha, caruma,
Que hoje já os campos não estruma,
Ou assa a castanha,
Ou agasalha à borralha,
Com os cento e tal nomes que entulha
A cabeça de todo o meu parceiro.

Foi no manifesto de Ventotene
Que dois antifascistas destemidos
Utilizaram o papel que não queres,
Para mostrar ao mundo que a europa das mulheres
Se quisesse se libertar de guerras,
Teria que se unir em estados federativos.

Mas hoje há esses perigos.
A europa desagrega-se;
O brexit, a possível eleição,
A incerteza que espreita:
Presidente austríaco da extrema direita?!...

Por isso, tudo te põe mais velha.
Envelheces, precisas de fisioterapia,
Quando ontem ginástica tão bem te fazia...

Parabéns!

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