Fui ontem visitar a Casa do Camilo,
A primeira no país com esse objectivo,
Não era dele, mas do marido da sua amada,
Que só tiveram paz lá, quando viram a vida dele terminada.
Ao entrar, do lado esquerdo e virado para a rua, a Noroeste
Tem os banquinhos de pedra, ditos de namorar;
Era lá que a sua amada passava longas temporadas, a registar
A ouvir o povo que passava, para ter reportório para o Mestre.
Como assim lhe chamou o nosso nobel,
Após a atribuição do seu prestigiado prémio.
- Eu tinha uma ideia dele, diferente, por vir da área do jornalismo,
Mas ao referir-se a ele, sempre desta forma que comove.
É que se por qualquer razão desaparecesse toda a cultura portuguesa,
Bastaria a obra de Camilo para fazer o restauro com a adequada clareza.
Volvidos seis lustros neste seu trabalho de guia na visita guiada,
Em que uns estão em cima, outros a fazer a entrada,
Naquela mesclada, cada um vai registando o que acha que deve;
Mas junto dele, tudo tem uma outra amplitude que me deteve.
Sabe-se amiúde, que aquele relógio de sala foi descrito em pormenor
Em EusébioMacário; que aquela acácia à entrada foi objecto de poema ao filho Jorge
Que por ele não terminou a sua vida na cadeira mais cedo;
Quando já se encontrava muito endividado e cego,
Ele que estudara medicina, ouvir do médico,
Que deveria ir para o Gerês,
E abandonando a casa pela companheira acompanhado,
Um desesperado disparo na sala é soado.
-Não é a aquela a arma da sua morte;
Essa encontra-se no Porto, na Igreja da Lapa.
Mas aquilo que eu muito adorei
Foi assistir na sala onde ele se suicidou,
A recitação a dois, em que o guia era o mestre que corrigia,
Do Soneto sobre os cento e dez amigos,
Que o abandonaram.
Estava lá em baixo, na antiga adega camiliana
Agora em exposição temporária, o original,
Por baixo da brutal lupa, quase sem igual,
A sua revolta contra esta triste Natureza Humana...
Amizade? Que amizade?...
Eu nem amigo de mim mesmo sou,
Quanto mais de um outro que já prestou,
Mas tudo, tudo passou.
E o que ficou
Foi o que reza sabiamente o aforismo açoriano:
"O que foi e que já não é, é o mesmo que nunca tivesse sido".
É assim, Camilo, é este o inevitável castigo.
domingo, 6 de novembro de 2016
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