sábado, 17 de junho de 2017

Estrada da Morte

Não sei que se passava,
Dormir, não me dava.
Sentia-me angustiado,
Entendia que tinha de me fazer à estrada.

Mas ouço em direto.
No meu país houve uma tragédia,
Lá para o Pedrógão Grande.
Primeiro, 16, depois às duas e tal,
Mal abre a boca o nosso maioral,
Já iam em 24.

16 carros apanhados em fogos cruzados,
E as pessoas estavam dentro queimadas,
Mas quantas poderão ainda lá estar,
Nas imediações ao tentar fugir do lugar?...

Que importa que tenham sido 156, como disse o nosso primeiro,
Ou cento e cinquenta e quatro corrigido pelo sabedor da Proteção Civil.
Só no dia que acabou de findar?
Tantos incêndios, incêndios esses que tem vindo a aumentar desde abril.
E o fenómeno meteorológico de exceção, com trovoadas secas
E ventos de convecção, que amanhã continuarão,
A sul de Coimbra até ao norte alentejano não podem ser a explicação.

Há anos, em Arouca conheci um alemão
Que cá vivia e se indignava com o que cá se passava:
Terror dos incêndios!
Verdadeiro terrorismo, que sofre o nosso país, me dizia.

E se os turistas não vão para os locais de conflitos,
Muito menos, quererão vir para cá, para serem fritos!...

Solução, solução é pôr esta gente toda a limpar.
Terrenos em que os donos não são identificados,
Devem ser nacionalizados.
Sesmarias para os nossos montes,
Pois já para os campos, o nosso Formoso rei assim pretendia.

Leis, temos leis demais que não são respeitadas.
Ainda hoje, na estrada do atlântico, um autocarro estava parado
E o motorista bem regalado no café.
Uma senhora buzina,
Ele quase achou que era uma cretina,
E manda-a passar a linha contínua,
O que fez.

E eu ao ir mergulhar na praia norte,
Tive que ouvir assim um profissional sarrafaçal,
Por isso é que temos na estrada tanta morte,
Os incêndios, mais não são do que criminosos.

Parece que estou a recordar o que se passou na minha infância:
Um clarão brutal acorda-me de madrugada.
Um incêndio no palheiro, primeiro,
Depois, o tojo ao lado que era para colocar na corte do gado.

De jarro na mão, a tentar apagar o que o tone maluco
Havia, reconheceu ele muito mais tarde, provocado,
Pois a mãe a entrada em casa lhe havia fechado,
Dada as horas tardias a que lá chegava.

Tinha frio, fez uma fogueira,
E por causa dessa inocente ideia,
Provocou-me um sufoco,
Que ainda hoje não consigo troco...

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